No Bairro Imperial, na avenida que leva o nome do Imperador D. Pedro II, ergue-se o velho prédio. Logo vem as lembranças ... ao chegarmos, no começo da manhãzinha clareando o dia, instintivamente mentalizamos o antigo Comandante, Ten-Cel Erasto Pires Sayão, acompanhado do General Ladario Pereira Telles, então Comandante da I Região ... poderiam atravessar o portão a qualquer momento, para receber as honras militares pelo Corpo de Alunos formado ao longo da Avenida, para mais uma cerimônia diante do busto do nosso Fundador, Patrono e Guia, Cel Correia Lima.
Já fazem mais de 50 anos ... era uma madrugada de dezembro, quando saímos de casa cedinho, sob as bênçãos dos pais, para iniciar o curso do CPOR.
Agosto de 2015. Mais uma vez vamos chegando ao antigo quartel de São Cristóvão. O tempo passou e deixou as suas marcas. Nem todos puderam estar aqui hoje. Foram muitas alegrias, algumas tristezas. Para uns a vida sorriu, para outros nem tanto, para alguns o destino foi inflexível, o Criador não lhes permitiu chegar até esta data. Saudades ...

Mais uma vez os abraços apertados dos velhos companheiros, é o nosso Jubileu de Ouro – 50 anos da Declaração de Aspirantes no Estádio de São Januário em agosto de 1965.
“ .... saimos cedinho do CPOR, as viaturas rebocando obuseiros 105 mm da II Guerra Mundial, episodio glorioso da Arma de Mallet. Nossa Bateria recebera a missão de executar a salva de 21 tiros em saudação ao Marechal Mascarenhas de Moraes, Comandante da FEB, Patrono dos Aspirantes formandos em 1964.
Pegar na Palamenta !!! Entramos em posição num descampado próximo a Barreira do Vasco, um campinho de pelada. Não havia visada direta para a porta do Estádio, tivemos que instalar uma linha telefônica com aparelhos de magneto, de modo que quando o velho Marechal desembarcou do carro oficial, um aluno acionou a manivela, e do outro lado recebido o "Pronto", tudo isso calculado em frações de segundo, imediatamente o comando da ordem de "Fogo"; quando o Marechal pisou o solo, a primeira salva ribombou pelos ares, as crianças puseram-se a correr, os pombos fugiram em revoada, a Banda atacou o toque de Marechal, imediatamente seguido pelo Hino Nacional Brasileiro.
Durante a salva, a cada intervalo um disparo era executado com metódica precisão pelas guarnições das 4 pecas de artilharia compostas pelos alunos do 1º ano. Era a despedida dos colegas do 2º ano, que saiam Aspirantes a Oficial R/2.”

Eternos antigos alunos do CPOR, como Shakespeare definiu em “Henry V”.... “we few, we happy few, we band of brothers” .... todos herdeiros de uma época fantástica, em que tão jovens, frequentamos o Inesquecível CPOR.
Como o mundo dá voltas ... Há muitos anos usamos um uniforme. Agora aqui estamos. Nosso quartel foi poupado, o Senhor dos Exércitos permitiu que fosse transformado em belíssimo museu, ao contrario de tantos aquartelamentos que foram demolidos no Bairro Imperial de São Cristóvão.

Ainda podemos contemplar as paredes exibindo familiares insígnias, da Infantaria de Sampaio, da Cavalaria de Osório, da Artilharia de Mallet, enfim de todas as especialidades e denominações que formam o nosso Exército, ao qual um dia pertencemos, sem saber que nos deixaria a marca indelével do exemplo dos Instrutores, a saudade, culto dos valores, honra cidadã.
A Banda executa o Hino Nacional Brasileiro. A Declaração de Aspirantes se realiza solenemente em formatura militar no Estádio do Vasco da Gama, em São Januário, com a presença do Ministro da Guerra, Comandante do I Exército, Comandante da I Região Militar, vários Generais, as famílias, madrinhas.
Meio século se passou. Muitos colegas se mudaram, alguns partiram, nos deixando a eterna lembrança, outros não foram localizados. Apenas uma pequena parte da turma conseguiu se reunir. Jovens Aspirantes, agora jovens Veteranos, ainda que o tempo que não perdoa tenha embranquecido cabelos e deixado as suas marcas.

A solenidade vai começando. Todos atendem a convocação para cantar o Hino Nacional Brasileiro com o mesmo entusiasmo, a mesma vibração de décadas atrás, as estrofes subindo aos céus de São Cristóvão.
À nossa frente o magnífico prédio em estilo neoclássico, construído nos anos 20 pelo então Diretor de Engenharia General Rondon, que dá seu nome honrado à nossa turma... “morrer se preciso for... matar nunca “... o filho de uma índia bororo, verdadeiro Herói Nacional.
Inesquecível CPOR, a Casa de Correia Lima, jovem Capitão que há mais de 80 anos teve uma percepção incrível. Lutou e finalmente conseguiu do Ministro da Guerra a criação de uma escola militar que receberia estudantes das faculdades e os formaria como oficiais da reserva.
A ideia era genial, tão bons resultados rendendo na Segunda Guerra Mundial, quando metade dos tenentes da FEB era do CPOR
Passadas décadas, o estilo sóbrio e elegante encanta a todos que passam diante do nosso saudoso quartel. Um dia se tornou pequeno, determinando a transferência para a Avenida Brasil, liberando o belo prédio para abrigar o já tradicional Museu Militar Conde de Linhares.

Ouvindo as palavras do Coronel Comandante do CPOR diante da nossa tropa formada, ele que disse ter 1 ano quando nos formamos, vemos que valeu a pena. O tempo passou, tudo mudou, mas continuamos unidos, pelas mesmas nobres causas, pelos mesmos ideais.
O discurso termina, logo vem a ordem de preparar para o desfile. Os acordes da Banda fazem vibrar a nossa tropa. Voltamos 50 anos no tempo, recuperando de algum canto da memória os comandos, a atitude militar, o garbo, a marcialidade do tempo de aluno. Bumbo no pé direito!
Os estandartes tremulando ao vento. A Banda executa o Hino Nacional Brasileiro com pompa e circunstancia. Os antigos alunos se emocionam, lembram aqueles dias distantes em que eles mesmos desfilavam ... e se reconhecem nos rostos daqueles jovens alunos que marcham à frente.
Nos poucos minutos da formatura, divisamos aquela varanda diante de nós. É como se ainda pudéssemos admirar ali o nosso querido comandante, Cel Erasto Pires Sayão, alto, sorridente, o bigode característico... CPOR Bom Dia ! ... Bom Dia Meu Comandante ! Era como se fosse um pai para nós.

Sem que os demais notem, um dos nossos enxuga uma lagrima furtiva. ... Mas não somente ele sente o coração bater mais forte .... a emoção atinge um pico máximo , assim todos procuram conter-se, com um nó na garganta.
Um ou outro antigo aluno, mais sensível, percebe que na calçada em frente, outros personagens, que não foram convidados, também estavam por ali.
Cel. Correia Lima, Gen. Ladario, Gen. Raphael de Souza Aguiar, Major Israel Behar, Instrutor-Chefe do Curso de Artilharia, Gen Lauro Alves Pinto, Cel Ruas Santos, antigos comandantes e instrutores abandonam por alguns momentos o Jardim do Éden, pelo Portal do Paraíso, gravitando incorporeamente.
A formatura vai terminando. Logo estaremos almoçando e teremos que partir. Que nos encontremos ainda muitas outras vezes, sempre em alegrias!! Somente alegrias !!

BRASIL ACIMA DE TUDO !!!
(*) Artilharia, CPOR/RJ Tu 1965
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