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A costa do descobrimento: 1500 – 2012 PDF Imprimir E-mail
Escrito por General de Exército Paulo Cesar de Castro   
Dom, 22 de Abril de 2012 01:33

(“Singela homenagem de um brasileiro ao país, por ocasião de seu 512° aniversário”)


Lisboa testemunhou grandioso cerimonial no domingo, 8 de março de 1500, véspera da partida da esquadra que Dom Manuel confiara a Pedro Álvares Cabral. O Rei assistiu à missa na ermida votiva do Infante D. Henrique, entregou a Pedr’Álvares o estandarte régio, com a cruz da Ordem de Cristo, e transmitiu-lhe ordens miúdas e graves[i].

Pedro Álvares, capitão-mor da armada, Senhor de Belmonte e Alcaide-Mor de Azurara pertencia à melhor gente da Beira, filho de Fernão Cabral e Dª Isabel Gouveia. Em sua esquadra de três navios redondos, dez naus e caravelas, haviam embarcado: Pero Vaz de Caminha, escrivão da feitoria a ser fundada em Calicute, nas Índias; o guardião franciscano Henrique Soares de Coimbra; Bartolomeu Dias; soldados e frades, também franciscanos; degredados e navegantes famosos, perfazendo o efetivo aproximado de 1200 a 1300 pessoas[ii].


 

Escreveu Caminha que “... a 23 (de março) perdeu de vista a nau de Vasco de Ataíde, exatamente quando deixava no horizonte a ilha de São Nicolau, de Cabo Verde, e com o vento à feição, ao oeste, por este mar de longo, 660 ou setecentas léguas, a 21 de abril uma surpresa comoveu e exaltou a marinhagem. Pescaram-se gramíneas, vindas de terra próxima! Pela manhã de 22, quarta-feira, oitavário da Páscoa, topamos aves a que chamam fura-buchos, e, a horas de véspera, houvemos vista de terra, a saber: primeiramente dum monte mui alto e redondo, e doutras terras mais baixas, ao sul dele, e de terra chã com muitos arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome de monte Pascoal...[iii]“. Exultemos, pois, ó brasileiros, nosso querido país acabara de nascer. Salve 22 de abril de 1500!

“Não havendo no local bom abrigo para a esquadra, singraram os navios para o norte e a 25 chegaram a magnífico ancoradouro, que se chamou Porto Seguro. Num dos ilhéus da enseada, o da Coroa Vermelha, Frei Henrique celebrou, a 26, a primeira missa no Brasil[iv]”. O celebrante era homem de singular religião e piedade, anos mais tarde elevado, pela santidade de sua vida, a Bispo de Ceuta[v]. Comemoremos, pois, ó brasileiros, Jesus nos abençoava e se fazia presente em nossa pátria, pela primeira vez, na hóstia consagrada.


 

A segunda missa foi celebrada a 1° de maio, em praia de terra firme na qual foi erguida uma cruz com as armas de Portugal, símbolo da posse da terra. Cabral, a dois de maio, retomou o caminho das Índias. Um navio, sob o comando de Gaspar de Lemos, retornou a Portugal para levar a Dom Manuel I, “O Venturoso”, a notícia do descobrimento, minuciosamente narrado em carta por Pero Vaz de Caminha, à qual Joaquim Silva se refere como “a primeira página da história pátria[vi]”. Este precioso documento foi descoberto em 1793, na Torre do Tombo, Lisboa, e publicado pela primeira vez em 1817 por Aires de Casal em sua obra Cosmografia Brasílica[vii]. Alegremo-nos, pois, ó brasileiros, nosso país tem preservada na íntegra a certidão de batismo que atesta incontestavelmente sua origem ocidental-cristã.

Eu e minha esposa também estávamos lá... em janeiro de 2012.


Ao chegarmos a Porto Seguro passamos sob um pórtico com o dístico “Aqui nasceu o Brasil”. Emociona estar na cidade assim denominada pelos próprios descobridores, como se lê nas derradeiras linhas da carta de Caminha: “Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500[viii]”. À entrada da cidade admira-se o belo monumento que homenageia Pedro Álvares Cabral. A ele devemos nosso primeiro nome, Ilha de Vera Cruz. A Dom Manuel, o segundo, Terra de Santa Cruz. Agradeçamos a Deus, pois, ó brasileiros, nascemos e nos mantivemos sob o sinal da cruz.

Em janeiro de 2012, desfrutamos de magníficos dias de sol e lazer na praia de Taperapuan à frente da qual desfilaram os navios dos descobridores. Deleitamo-nos com a Costa do Descobrimento, belíssimo litoral que se estende do Parque Nacional de Monte Pascoal, ao sul, até Belmonte, ao norte. Caraíva, Trancoso, Arraial d’Ajuda, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Belmonte são os municípios que recebem de braços abertos, todos os anos, milhares de turistas de todos os rincões do Brasil e de tantos países amigos.


Os naturais da terra se orgulham das belezas naturais que exibem e do passado ímpar que os distingue. O justificado orgulho se manifesta por toda parte, como nestas palavras do Guia Turístico da Costa do Descobrimento[ix]: “Marco do início do Brasil, Porto Seguro é o ponto de partida para se conhecer o rico acervo histórico tombado e conservado. Datado dos primórdios do Descobrimento do Brasil este cenário pode ser visitado e entendido nos museus, através do farto acervo histórico. Entre prédios históricos, museus e locais ainda primitivos o visitante vive um pouco da nossa história em toda a Costa do Descobrimento”. Nela, caravelas com a cruz da Ordem de Cristo, nas mais diferentes peças de artesanato local, são oferecidas ao turista por toda a parte.   Sigamos, pois, ó brasileiros, descobrindo a Terra de Santa Cruz.

Em Porto Seguro visitamos o “Memorial da Epopeia do Descobrimento”, inaugurado em 2003, um espaço cultural idealizado e fundado pelo Professor Wilson Cruz. Ao percorrê-lo, podem ser admiradas: espécies da flora nativa; o pavilhão da epopeia das grandes navegações marítimas; uma réplica em tamanho natural de caravela da esquadra de Cabral; e, em grande oca, objetos variados de inúmeras tribos indígenas, referência aos primitivos habitantes da Terra de Santa Cruz.

No sítio histórico de Porto Seguro encontra-se o famoso Marco do Descobrimento ou da Posse, enviado em 1503 e no qual estão esculpidas a Cruz de Aviz, símbolo da Ordem de Cristo, e as armas de Portugal. Pedro Calmon denomina-o de Padrão de Posse. A Casa de Câmara e Cadeia (Sec. XVII), o casario preservado, a Matriz de Nossa Senhora da Pena (iniciada em 1535), a igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário (1549 e 1551) e a igreja de Nossa Senhora da Misericórdia são relíquias arquitetônicas que atraem a admiração de todos. Orgulhemo-nos, pois, ó brasileiros, pelas obras preservadas do rico patrimônio histórico nacional.


Trancoso foi fundada em 1586 para a defesa em face de contrabandistas de pau-brasil. Seu sítio histórico é um dos mais importantes da Costa do Descobrimento. Nele, destaca-se típica forma de povoamento dos jesuítas, o Quadrado, grande praça no alto de um outeiro cercada de casinhas baixas e geminadas. A igreja de São João Batista ergue-se no lado do Quadrado voltado para o mar. A atual Trancoso, antiga aldeia de São João Batista dos Índios, é considerada um dos últimos exemplares preservados das primeiras povoações brasileiras[x]. À estrada, pois, ó brasileiros, há muita história a desfrutar, além de paradisíacas belezas naturais, na Costa do Descobrimento.

No domingo, 26 de abril de 1500, Cabral e os capitães baixaram ao ilhéu de Coroa Vermelha e assistiram à missa, comovidamente celebrada por Frei Henrique[xi]. Em Coroa Vermelha, município de Santa Cruz Cabrália, se encontra uma cruz-monumento que assinala o local da primeira missa celebrada no Brasil. Desenho de J. Wash Rodrigues e famoso quadro a óleo de Vitor Meireles remetem-nos àquele memorável dia da nacionalidade. Eia, pois, a celebrá-lo, ó brasileiros, como evento da Semana de Vera Cruz, denominação dada ao período de dez dias vividos pela esquadra de Cabral na Costa do Descobrimento. Acorramos com intenso júbilo cristão, pois, ó brasileiros, às missas em 26 de abril e 1°de maio.

No sábado, 2 de maio de 1500, Pedro Álvares Cabral deixou Porto Seguro rumo às Índias. No domingo, 22 de janeiro de 2012, eu e minha esposa decolamos de Porto Seguro rumo ao Rio de Janeiro. Estivéramos todos na Costa do Descobrimento que, “de ponta a ponta é toda praia palma e muito chã e muito fremosa... em tal maneira graciosa que querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem...” [xii].

Que o Cristo Redentor siga abençoando-te e orientando-te, ó Terra de Santa Cruz, eterna pátria de raízes ocidental-cristãs. Parabéns, Brasil, por seus quinhentos e doze anos. Feliz Aniversário!


[1] - CALMON, Pedro. História do Brasil, Volume I, pag. 55. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959. E: SILVA, Joaquim, História do Brasil, pag.. 16. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955.

[1] - BUENO, Eduardo, A Viagem do Descobrimento, pag. 10, afirma que, após o desaparecimento de uma das naus (a de Vasco de Ataíde) restaram 1350 homens embarcados nos, agora, 12 navios. RIO DE JANEIRO: Objetiva, 1988.

[1] - CALMON, Pedro, ob. cit. pag. 55 e 56.

[1] - SILVA, Joaquim, ob. cit. pag. 16.

[1] - OSÓRIO, D. Jerônimo, Da Vida e Feitos de el-Rei D. Manuel I, pag. 77, in CALMON, Pedro, ob. cit. pag. 58.

[1] - Idem, página 25.

[1] - CALMON, Pedro, ob. cit. páginas 64 a 83.

[1] - Idem, pag. 83.

[1] - REHDER, Sérgio Osvaldo, editor e diretor. Guia Turístico da Costa do Descobrimento, 1ª edição, pag. 19. Porto Seguro e São Paulo: 2005/2006.

[1] - Idem, pág. 124 a 126.

[1] - CALMON, Pedro, ob. cit. pag. 58.

[1] - SILVA, Joaquim, ob. cit. pag. 24 e 25.

 

 

 
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